A última dança

Era uma sexta-feira. Andávamos a caminho do centro, levemente alterados e maravilhados com a capital do país. Estava um clima agradável e cantávamos em direção à uma noite que mudaria minha vida. Minha vida que andava ora sem graça, ora vazia, aos poucos preenchidas por fantasias, nostalgias, boemias. A luz do luar nos enaltecia naquele momento. Em meio aos carros com risos causados pelo teor etílico caminhávamos contemplando a sensibilidade e a poesia que as luzes da cidade, os prédios e os cartões postais transmitiam naquele instante de profundo êxtase existencial. Tudo estava ali. Mas, ainda faltava algo.

Deparei-me com um moço simpático. Mal nos falamos, mal dançamos e parti. Dois dias depois, uma mensagem foi o prelúdio de uma grande jornada. Sem expectativas e sem nomes tomei um outro rumo.

Seu toque se tornou meu novo vício. Sua pele sempre na temperatura perfeita de um aconchego, seu cabelo macio e escuro, seu olhar cor de mel. Agora minha canção predileta são as batidas do seu coração, que vez ou outra podia escutar quando deitava sobre seu peito. Como uma largarta em seu casulo seu beijo era o que faltava para renascer e florescer o que havia sido destruído há tempos dentro de mim. Pude resgatar o brilho e a beleza da luz interior que só o amor inesperado poderia proporcionar.

Em uma mesa de um restaurante simples paro e observo lentamente suas faces, seu riso frouxo, o jeito que acende e solta a fumaça do cigarro. Agora cada segundo deve ser bem aproveitado, pois sua partida se aproxima.

A sintonia dos movimentos e a dança dos corpos se tornaram as razões dos meus devaneios. Meu lar agora fica em seus braços. Posso lembrar da minha família, o cheiro da chuva se aproximando em uma tarde graciosa da minha infância. Em seus braços, ouço minha canção predileta enquanto você beija minha cabeça. A intensidade do nosso amor fez jus ao curto período que desfrutamos.

A caminho do aeroporto as mãos se apertam, o suor escorre, a garganta fecha. Os olhos molham, a boca treme. É anunciada a partida. A melancolia nos atinge, o último beijo acontece e as malas saem do chão. Hasta luego, mi amor.

Volto flutuando nas nuvens. Me pergunto: o que o destino nos reserva? Foi o último luar, o último vinho, a última noite?

Sigo confusa a caminho de casa tropeçando entre a dúvida e a esperança. Me restam os sonhos e os pensamentos profundos que me voltam para o encantamento que fora quebrado pelas idas e vindas da vida. Talvez, tenha sido a primeira dança de muitas. Ou, a última.

Gabriela Visconti

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