Olhares e encantos de um cidadão do mundo

Há três meses, Fernando estava em Potosí, uma cidade histórica boliviana, onde parava e observava a porta da igreja de San Lorenzo toda esculpida em pedra pelos índios de sua pátria. Antes da colonização, os povos originários sempre tiveram grande fé e respeito pela existência das sereias. Quando os espanhóis chegaram, finalmente tinham uma ‘imagem’, uma idealização delas e agora podiam desenhar, esculpir estas figuras. Fernando sempre se entregava a contemplá-las.

O caos da cidade simplesmente desaparecia naquele momento, que se resumia apenas ao instante entre ele e a arte. Observava extasiado cada detalhe, as sereias esculpidas com maestria, sua história, suas lendas. Quem escuta suas narrações fica encantado, se mantém atento e mergulha em seus contos e conhecimentos. A porta da igreja de Potosí se tornou o início de muitos assuntos evocados por ele, um estrangeiro e novo integrante da terra Brasilis. 

Moreno, de baixa estatura, tem cabelos negros e lisos e um olhar expressivo. Sujeito cortês, culto e amante da literatura – principalmente da latina – adora onomatopeias na fala e dissemina um senso de humor único por onde passa. Recém-chegado na capital brasileira, Fernando Perez é antropólogo e a cada dia que passa desbrava novos ângulos da jovem e pacata cidade planejada. Nascido na cidade de La Paz, na Bolívia, sempre foi grande fã dos estudos. A princípio, gostaria de estudar história, mas por dificuldades da época não pôde. Apesar disso, por ironia do destino, o erro se transformou em um acerto. Se entregou ao mundo antropológico, onde coleciona orgulho, títulos e êxitos.

Fernando tem uma intensa relação com o lado artístico e emocional das faces do cotidiano. O que mais o encanta é a visão intangível e utópica do sentido da vida. E, assim, pouco a pouco, ele vai conhecendo as peculiaridades do povo brasileiro e da terra do samba. Se encanta com o calor, a recepção, o carisma, o toque através de um abraço e de um aperto de mão. E, afirma, com sotaque bem carregado na letra r, que em seu país esse tipo de abordagem não é comum.

Conhece diversos países e tem grande afinidade com os idiomas – onde o da vez é o português. Atualmente, trabalha fazendo revisão de textos, contos e livros para escritores da língua espanhola e também ministra aulas de espanhol e inglês na Faculdade Dulcina de Moraes. Além disso, está a caminho de seu mestrado em história pela Universidade de Brasília (UnB).

No percurso para o trabalho, enquanto vai ou volta de suas aulas pelo Conic, ele para no viaduto e observa os monumentos arquitetados por Niemeyer, contempla o ilustre céu da capital e analisa as características das pessoas e seus comportamentos.

Hoje, mora no Guará e fica maravilhado por ocupar seu vigente espaço em uma nova cultura, provando novos sabores, convivendo com diferentes comportamentos, conhecendo pessoas e criando vínculos. Durante suas falas é possível perceber seu brilho no olhar, a felicidade em lecionar e o orgulho de sua trajetória enquanto gesticula intensamente com as mãos em uma conversa informal.

Em uma noite quente em um bar, entre um gole e outro de cerveja, Fernando discursa com expertise sobre assuntos antropológicos. Afirma que é um cidadão do mundo e que ainda deseja morar em muitos lugares, e que até agora, Buenos Aires é sua cidade predileta. Também fala que Brasília está lhe dando boas oportunidades e é muito grato por isso.

Pode-se dizer que é um tipo excêntrico, inteligente, com um talentoso e quase extinto olhar sensível da vida contemporânea. Aquele olhar que capta momentos, situações, ares e poesia no vai e vem incansável da cidade. A cidade que, por sua vez, é seu novo lar.

Sua nova casa, dona de uma cultura tão rica e mãe de grandes nomes da literatura, da música e das artes, o que o fascina completamente. Em conversas informais, é perceptível seu apreço pela bossa nova e pela música popular brasileira, que coincidentemente era o som de fundo num simples boteco de cidade satélite na segunda vez que nos vimos para desenvolver este trabalho. Era um dia de bastante sol e quase nada de vento. Mas, o clima não parecia o incomodar. Ele afirma que essa é a essência da felicidade. Apreciando boa música, boa comida, em uma outra realidade. Diz se sentir realmente vivo com as coisas simples da vida.

No dia a dia escuta no fone de ouvido músicas como Pedro Pedreiro do Chico Buarque. E o trecho preferido é:

 “Esperando, esperando, esperando / Esperando o sol / Esperando o trem / Esperando aumento para o mês que vem / Esperando um filho para esperar também / Esperando a festa / Esperando a sorte / Esperando a morte / Esperando o Norte / Esperando o dia de esperar ninguém / Esperando enfim, nada mais além, da esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem”.

Enquanto caminha pela cidade escuta essa música e com seu olhar segue captando e analisando as situações justamente como um bom antropólogo faz. Em sua trajetória, esbarra com inúmeros Pedros Pedreiros ao dia. Aquele Pedro, trabalhador de classe operária, que vive a esperar. No início era ganancioso e agora apenas desesperançoso. Entre um passo e outro, percebe nuances da cidade e mentalmente realiza comparações com sua terra natal…

Após alguns encontros e muita prosa, foi possível mergulhar em um universo particular desconhecido que foi, sem dúvidas, uma grande experiência para a curiosa que vos escreve. Seguimos a caminho da despedida entre as belíssimas árvores coloridas em plena primavera pela capital do País. Ele volta para suas aulas. Eu sigo para Ceilândia afoita para começar a escrever esta pequena parte de sua história. Ao partir, recebi um abraço e um “muito obrigado” bastante acanhado. Correspondi. Ali, identifiquei um olhar renovado mediante à cidade e um interessante laço, que neste momento acabara de se estreitar através de um vínculo espontâneo, criado pelas idas e vindas da cidade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s