A luta inacabável

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Com vida sossegada, Geni acorda por volta das 7h, dá uma volta no jardim até decidir qual fruta irá escolher para o café da manhã. Vivaldo, na tranquilidade, cuida de seus queridos passarinhos ao som de uma moda de viola. Antes de pegar no batente, Geni costuma deixar o feijão de molho, verificar sua agenda de clientes do dia, varrer a calçada e conversar com alguns vizinhos sobre algum fato ocorrido durante a noite, tudo muito sereno. Às 9h abre o salão e mostra que veio pra ficar na cidade. Entre tesouradas, químicas malucas e cores inusitadas, Geni vive a vida que sempre quis. Mas, nem sempre foi assim.

Geni de Fátima da Silva de 59 anos, que aparenta ter 45, tem porte médio, negra, incrivelmente alegre e inteligente. À primeira vista não é possível imaginar sua história de vida e suas conquistas. Geni que hoje mora no interior de São Paulo estava visitando suas filhas no bairro de Sabará, zona sul de São Paulo, e foi ali naquele dia que fui recebida com um copo d’água gelada com leve gosto de barro, por conta do filtro recém-comprado.

– Podemos começar, dona Geni?

– Sim, se quiser pode pegar um lenço, pois a história é meio triste. Brincadeira!

Em meados dos anos 50 sua família, que na época se resumia a mãe e pai, trabalhava na condição de meeiro em um sítio no interior paulista. Com o passar dos anos vieram seus oito filhos: Vera, Kátia, Antônio, Luiz, Manoel, Maria, Divina e Geni.

Seu pai Manoel cometeu suicídio perto de seu aniversário. Sua morte foi drástica e assustadora: ingeriu soda cáustica. Até hoje ninguém sabe o motivo. Após o choque, sua mãe, Antônia, teve de trabalhar em dobro para conseguir sustentar seus filhos.  Geni, já uma menina-mulher, com oito anos de idade, tornou-se responsável pelos irmãos e pelas atividades domésticas.

O estudo nunca foi prioritário na vida da família. A escola mais próxima ficava cerca de 15 quilômetros. Geni estudou até a quarta série e conta com lágrimas nos olhos que houve dias em que ela e seus irmãos comiam terra a caminho da escola, pois era muito distante e nunca tinham comida suficiente em casa.

Além de cuidar dos irmãos, cozinhar e limpar toda a casa, ela e mais os sete pequenos saiam pelos bairros mais próximos e batiam de porta em porta a fim de conseguir algum mantimento ou trocado para ajudar dona Antônia na renda da família.

Com seus onze anos de idade a responsabilidade de cuidar da casa e dos irmãos já não era mais sua. Geni começou a trabalhar em uma casa de família junto com sua mãe. Lá ela era uma espécie de ‘empregada doméstica mirim’, mas já trabalhava como uma adulta.

Apesar de ter sua infância perdida para o trabalho, Geni afirma que foi bastante divertida.

“Nós tínhamos pouco, mas fazíamos do pouco o nosso universo”, lembra.

Aos 18 anos Geni conheceu seu primeiro marido, Sílvio, com quem ficou casada até seus 25 anos. Na maior parte destes sete anos ela já não suportava mais a relação, mas não podia pedir a separação. Na época havia enorme preconceito contra as mulheres desquitadas. Era quase impossível conseguir emprego, o que Geni não podia deixar acontecer, já que tivera três filhas com Silvio: Solange, Silvana e Simone. Silvio era alcoólatra e usuário de drogas, agia de modo extremamente violento e chegou a espancar Geni e suas três filhas dentro de casa por diversas vezes. “Era um inferno que eu não conseguia escapar. Não tinha apoio da família e a sociedade quase que incriminava mulheres separadas. A culpa sempre era da mulher”, diz.

Certo dia uma prima, de 15 anos, foi visitar a família e Silvio tentou aliciá-la. Esta foi a gota d’água e houve uma briga entre o pai da menina e Silvio. Quando Silvio adormeceu, Geni e suas filhas conseguiram fugir.

Após virar a página dessa terrível fase de sua vida, Geni e suas três filhas foram morar no bairro de Casa Grande, extremo sul de São Paulo. Novamente sem respaldo e ajuda na renda, trabalhava em período integral na cozinha de um frigorífico. Duas vizinhas tomavam conta das crianças – estas roubavam seus pertences e judiavam de suas filhas.

No frigorifico que trabalhava na época, conheceu o paranaense Vivaldo que logo se tornou pai das filhas mais novas: Mariangela e Marineli.

Geni que sempre teve de trabalhar para sustentar seu lar e suas filhas tinha o sonho de se tornar cabelereira.

“Era difícil ter uma perspectiva de sonho, mas eu sempre o mantive ali, guardadinho no fundo do meu coração”, lembra.

Geni tentou fazer um curso de corte de cabelos. Uma amiga da família lhe deu um kit de toalhas e uma tesourinha usada. “Para começar estava ótimo, eu estava radiante e confiante”. Infelizmente Geni foi ao curso apenas algumas vezes, pois começaram a pedir materiais, o que fugia do orçamento da família. Teve de abandonar seu sonho.

Simone, a filha do meio de seu casamento com o Silvio, sofreu um atropelamento e faleceu. Geni e Vivaldo ficaram totalmente desolados e tinham medo de continuar em cidades como São Paulo. Após isso, decidiram vender a casa de São Paulo e mudar para o interior. Lá era mais seguro e os imóveis mais baratos e maiores.

Com a vida reestabelecida, eles aproveitaram o talento culinário de Geni e abriram uma lanchonete em um espaço que havia em frente à casa. Lá vendiam marmitex, lanches e caldo de mocotó – que se tornou um grande sucesso no bairro. Nesta época Solange e Silvana já não moravam com eles e ambas estavam casadas e cada uma tinha uma filha. Frequentemente iam visitar seus pais na cidade de Rio Claro, interior paulista. As netas Bianca e Camila adoravam ajudar a avó na lanchonete. Antes de embarcarem de volta para São Paulo, Geni preparava o famoso e esperado “saquinho de sobrevivência” que continha jujuba, pé de moleque, amendoim, bala de iogurte, chocolate prestígio, paçoca e uma latinha de sukita.

Geni sempre teve um dom para culinária. Onde ela colocava as mãos se tornava magia. Ela transformava uma refeição, com três simples ingredientes, em um banquete fascinante e com sabores extraordinários. Seu carinho e amor dava o charme das receitas. Inclusive, tive o prazer de experimentar sua carne de panela com arroz e feijão, e sinceramente, nunca provei algo igual. Tão simples e tão adorável.

Segundo Geni, o período da lanchonete foi ótimo, porém a cansava demais. Só tinha ela para cozinhar, tomar conta da lanchonete e da casa, enquanto Vivaldo cuidava do balcão, dos cachorros e dos pássaros. Além disso, tinham os bêbados de plantão que ficavam gritando e fazendo vexame, pedindo pinga fiado. No fim, a lanchonete se tornou uma dor de cabeça.

Após o fechamento da lanchonete, eles alugaram o ponto para uma loja de sapatos. Com o dinheiro do aluguel e com as economias guardadas, Geni tinha um plano: voltar a estudar e finalmente começar a construir seu verdadeiro sonho.

Em menos de um mês, aos 50 anos de idade, se matriculou em um supletivo numa escola estadual próxima. Em pouco tempo concluiu o segundo grau. Foi assim que pôde dar um avanço em sua vida, agora por ela mesma e por mais ninguém. Finalmente estava fazendo algo por ela. Começou um curso de cabeleireiros em Piracicaba, era longe, mas era o melhor da região. Agora tinha secador, tesoura, kit de toalhas e um bom conhecimento no assunto, pois agora podia ler.

Geni triunfou. Desde a primeira aula era a aluna mais aplicada. Sua vontade de aprender e viver, mesmo com aquela idade, era incrível. “As alunas mais jovens pareciam estar ali por obrigação, por nada ter dado certo, parecia que estavam no fundo do poço”, lembra. Em menos de um mês, já havia se tornado colega dos professores, que em sua maioria, eram uns carrascos. Gritavam e colocavam pressão nas alunas durante os testes. Geni tirou de letra. O que é um gritinho em aula em vista de tudo que ela passou? Aliás, na aula é para errar mesmo e aprender.

Um dos dias mais felizes de sua vida foi quando pegou o diploma nas mãos e foi à confraternização, já com o tão esperado título de cabeleireira.

No ponto que antes era a lanchonete, depois loja de sapatos, hoje é um lindo salão.

De todos seus irmãos, hoje três falecidos, ela foi a única que conseguiu alcançar seu objetivo e viver de um trabalho prazeroso.

“É uma profissão muito concorrida e de muita responsabilidade. Mexer com a aparência das pessoas é algo complicado”, afirma.

Considerada a melhor cabeleireira da cidade, Geni passa para as filhas e netos o valor do esforço, paciência, do dinheirinho suado.

“Não adianta querer atropelar as pessoas, tudo que você planta hoje, você colhe amanhã”, aconselha.

Família desestruturada, fome, esmola, violência, abuso sexual do próprio marido, morte de uma filha de nove anos e rejeição. Tudo isso fez com que Geni desenvolvesse um fortíssimo escudo para sua proteção. De acordo com suas filhas, ela sempre foi rígida e algumas vezes ríspida. É compreensível depois de tanto lutar e ter de se defender de tudo e todos. Mas ainda assim, no meio de tanta maldade e sofrimento, Geni manteve sua lucidez e se tornou um exemplo de vida para todos que a conhecem.

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